Jurado de morte, Roberto Saviano lança novo livro e afirma que Itália é um país cruel

Jurado de morte, Roberto Saviano lança novo livro e afirma que Itália é um país cruel

Na Itália é assim: parte dos principais mafiosos está presa, parte está livre — com negócios ilegais, como o tráfico de drogas e extorsão, e legais, como investimentos financeiros e imobiliários-construção civil — e Roberto Saviano, de 38 anos, é uma espécie de homem que vive livre e, ao mesmo tempo, é prisioneiro. A Camorra, a máfia de Nápoles, o condenou à morte. O escritor e jornalista é protegido, dia e noite, por sete carabinieri (policiais). Sua vida social é praticamente nula. Mesmo sob pressão, continua escrevendo livros, como “La Banda de los Niños” (Anagrama, 377 páginas).

“La Banda de los Niños” é um livro ficcional — a imaginação literária reconstrói a realidade para torná-la mais perceptível aos leitores — que retrata a Camorra 2.0, a nova máfia napolitana. Talvez seja possível sugerir que a ação de um Estado não-legal dentro do Estado legal, agindo como um poder paralelo e, às vezes, incontrolável, pode ser mais bem explicada por intermédio dos recursos elásticos da ficção.

Numa entrevista ao jornal “La Vanguardia”, de Barcelona, Roberto Saviano admite que se arrependeu de ter publicado o livro “Gomorra — A História Real de um Jornalista Infiltrado na Máfia Napolitana” (Bertrand Brasil, 350 páginas, tradução de Elaine Niccolai). A Camorra jurou-o de morte por ter revelado seus segredos — certamente mais ao mundo do que à polícia da Itália. “Não renego o livro, mas, se pudesse voltar atrás, não o teria publicado. Deveria ter sido mais prudente. A Itália é um país cruel. Não permite que se retrate sua realidade — só que se fale de sua comida, de seus museus, de seus céus. Se contam o que compromete essas maravilhas, te odeiam.”

O novo livro de Roberto Saviano mostra que garotos da Camorra, a Máfia de Nápoles, estão se comportando como terroristas do Estado Islâmico e, por isso, não relutam em matar e morrer

No novo livro, Roberto Saviano mostra que os mafiosos mais jovens são extremamente violentos. “Não temem a morte e seu único projeto é obter o que querem. Os garotos de que falo, e que tenho estudado, têm uma interpretação crua e dura da vida. Tudo que lhes interessa é dinheiro. Para eles, a vida não é um presente, e sim algo que tem de agarrar a cada dia. Isto é novo. Antes havia meninos na Máfia, mas como subalternos ou garotos de recado. Os de agora mandam e têm grande talento. É a mudança dos últimos anos.” O escritor assinala que a mudança se deu porque muitos dos chefes velhos estão na prisão ou preferem ficar em casa. “Os que estão nas ruas se converteram em príncipes.”

O entrevistador Fernando García afirma que, no livro, os mafiosos passam dos jogos à pistola. “O hábito da violência virtual atua como facilitador da violência real?”, inquire o repórter. Roberto Saviano admite que sim. “Mas só se a área onde se vive oferece ferramentas para a ação violenta. Os meninos do livro usam armamento de guerra. Dispõem de um território onde podem abrir, reabrir ou ocupar uma praça [espaço] para vender drogas. Num lugar, pode-se ver Scarface [referência ao filme com Al Pacino, segundo “La Vanguardia”], e, noutro lugar, é possível ser Scarface.”

A “ficção” de Roberto Saviano “associa” mafiosos e terrorismo e o escritor chega a mencionar uma “Guantánamo ao ar livre”. “Na Europa comete-se o erro ou mal entendido de não se perceber que os terroristas islâmicos não estão desligados do mundo do crime e das drogas. Os terroristas dos últimos atentados, inclusive o de Barcelona, procedem do mundo da droga. São camelos [“mulas”, no Brasil], amiúde consumidores, originários de bairros pobres onde há delinquência. E, ainda que nem aqui [Espanha] nem na França se façam as perguntas corretas, o certo é que a história dessas pessoas é previamente uma história de preparação para a morte. Morte nas mãos de outros grupos, ou vários anos no cárcere. Para um terrorista, morrer matando pessoas em nome da Jihad enobrece. O ponto nodal não é o que o Islã faz com tais jovens. O crucial, e não nos damos conta disso, é que há gerações de jovem que morrem dentro mundo criminoso. Os meninos da gangue do livro — nenhum é muçulmano ou está interessado em religião — são todos fãs do Estado Islâmico. O que lhes interessa e atrai é que os terroristas são capazes de matar e morrer. O capital de um e de outro é a capacidade de provocar medo. Por isso muitos jovens da Camorra gritam ‘Allahu akbar!’. Há uma admiração midiática.”

A diferença entre os mafiosos e os terroristas é que os primeiros são movidos pelo dinheiro e os segundos, pela religião (mas precisam de dinheiro para organizar e desfechar atentados). Os adeptos do Islã matam em atentados suicidas. “Porém não se matam [ou se deixam matar] pelo Corão, e sim porque vêm de uma vida de ‘mierda’. Adquirem a ideologia semanas antes de cometer atentados. Para combater o Estado Islâmico é preciso melhorar as periferias e interromper o poder total do narcotráfico. Os mafiosos não têm o problemas do jihadismo, claro. Mas, ainda que não optem pelo suicídio, estão dispostos a morrer jovens. Dizem: ‘Se morre com mais de 90 anos é centenário; se morre aos 20 anos é legendário’. E, mais, acreditam que, se não morrerem, não estão fazendo bem o trabalho. Isto também é novo. É a desesperação máxima: a de crer que o dinheiro ou o tem assim ou nunca o terá.”

A Máfia é invencível? Pode-se dizer que é resistente, que muda seus modos de agir, que se adapta aos novos tempos — por exemplo, criando negócios legais, e não meramente como fachada —, mas pode ser enfrentada. O governo italiano, sublinha Roberto Saviano, tem obtido “grandes resultados”. “A Máfia está menos forte, mas ainda é potentíssima.” A organização criminosa — na verdade, organizações, porque não existe “a” Máfia, e sim “as” máfias (Camorra, Cosa Nostra, Ndrangheta, Sacra Corona Unita) — tem deixado de ser “o grande debate nacional”. Mas ao menos é discutida pelos italianos. A Espanha tangencia o debate, critica o escritor. O repórter de “La Vanguardia”, visivelmente incomodado, contrapõe: “Nos preocupam outras coisas”.

Roberto Saviano “corrige” o repórter: “A Catalunha pede sua independência e não sabe que seu maior perigo são as infiltrações mafiosas”. O jornalista duvida: “O maior perigo?” O escritor acrescenta: “Os investimentos e os fluxos econômicos [articulados pela Máfia] são gigantes em Barcelona, em Madri e outras áreas. Os políticos não falam disso”. O profissional de “La Vanguardia” recua: “Certo. A que o atribui?” O escritor afirma que os políticos espanhóis não percebem o problema, talvez porque, ao menos no país, não há uma grande violência associada à Máfia italiana. Os políticos, frisa Roberto Saviano, “não se dão conta de que o dinheiro das máfias russa, chechena e italiana está na Espanha. Em negócios, em palácios, apartamentos e casas, restaurantes”.

“A grande praça de ‘lavagem’ [“branqueamento” de dinheiro da Máfia] ou reciclagem financeira é Londres [comumente pensa-se que é a Suíça]. Porém depois, em termos de investimentos em infraestrutura, está a Espanha, território virgem por tradição. O turismo teve como base inicial o capital mafioso. Nos hotéis e discotecas na Costa Brava, Ibiza, Málaga… E é incrível que as informações tenham de ser procuradas na polícia italiana ou dos Estados Unidos. Porque na Espanha não existe o delito específico de associação mafiosa, e parece que a polícia espanhola não tem instrumentos para investigar devidamente as máfias. Tentarei trabalhar sobre isto nos próximos anos”, afirma Roberto Saviano.

A máfia “globalizou-se”, sustenta Roberto Saviano. “Há duas características: máximo nível econômico e mínimo nível cultural.” O escritor afirma que os mafiosos querem se casar com mulheres virgens, mas, do ponto de vista econômico, são modernos e negociam em vários países. “Eles utilizam ‘portas’ que a Europa põem à disposição de todos: a Espanha tem Andorra; a França, Luxemburgo; a Itália, San Marino. E todos, a Suíça.”

Como jornalista, depois de ler um de seus livros e várias de suas entrevistas, pego-me a pensar: se tem dificuldade de locomoção, como Roberto Saviano consegue pesquisar para escrever seus livros? A polícia e o governo italianos facilitam as consultas aos documentos e às investigações? Como ele faz para ter detalhes atuais das ruas napolitanas? Parece óbvio que alguém está atuando como facilitador de seus trabalhos. Jornalismo investigativo não é uma atividade solitária nem mágica.

Umberto Eco

Os livros de Roberto Saviano contêm verdades incômodas sobre a Itália e outros países, como o Brasil. A importância de seu trabalho é tal que levou o comedido Umberto Eco a escrever: “Saviano é um herói nacional”. O escritor Salman Rushdie afirmou: “Saviano pagou mais caro que eu por seus livros: a Fatwa da Camorra é mais perigosa que a de Khomeini”. Mario Vargas Llosa anotou: “Temos de agradecer a Roberto Saviano. Ele restituiu à literatura a capacidade de abrir os olhos e as consciências”.

As editoras patropis publicaram cinco livros de Roberto Saviano: além de “Gomorra”, o que gerou o filme, há “Zero Zero Zero” (Companhia das Letras, 408 páginas, tradução de Federico Carotti, Maurício Santana Dias, Joana Angélica d’Ávila Melo e Marcello Lino), “A Máquina da Lama — Histórias da Itália de Hoje” (Companhia das Letras, 158 páginas, tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo), “A Beleza e o Inferno” (Bertrand Brasil, 294 páginas, tradução de Karina Jannini) e “O Contrário da Morte — Cenas da Vida Napolitana” (Bertrand Brasil, 96 páginas, tradução de Ana Maria Chiarini).