11 canções essenciais de Vinicius de Moraes

11 canções essenciais de Vinicius de Moraes

Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes formou-se em direito, foi crítico de cinema, dramaturgo, poeta de rara sensibilidade ao escrever sonetos, músico e diplomata. A seu respeito, João Cabral de Melo Neto, também diplomata de carreira, certa feita afirmou: “Vinicius de Moraes poderia ter sido o maior poeta da língua portuguesa se tivesse levado a poesia a sério e não tivesse se deixado levar pela má influência da música popular”. Mesmo assim, Vinicius de Moraes é o poeta brasileiro mais traduzido para outros idiomas.

Drummond também cunhou sua definição sobre Vinicius: “Dentre nós, ele foi o único que viveu como poeta”. Na verdade, Vinicius se desnudava enquanto escrevia, trazendo à luz toda sua inquietação pelo amor, pela melancolia, pela tristeza e pela paixão, sem lançar mão de nenhum embuste literário, descrevendo sempre os próprios sentimentos, vívidos e vividos.

Da parceria com Tom Jobim surgiriam mais de 200 composições, dentre elas “Garota de Ipanema”, “Chega de saudade” e “Insensatez” .

Certa vez, entrevistado por Clarice Lispector, disse: “Não separo a poesia que está nos livros daquela que está nas canções”. Manuel Bandeira assim o definia: “Porque ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos”.

Entendo que Vinicius seja um poeta atemporal, pois é sempre atual no tocante ao canto sobre o amor, a solidão e suas intempéries. A obra literária de Vinicius teve início em 1933, com a publicação do livro “O Caminho para a Distância”, mas nessa época ele já havia escrito, para os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, duas letras de músicas que redundaram em sucesso: “Loura ou morena” e “Canção da noite”.

Sendo um poeta dedicado à lírica de tendência social e amorosa, e tendo sido fruto de uma rígida educação católica e das influências literárias de autores como Rimbaud, Baudelaire e Augusto Schmidt, o que lhe valeu posteriormente o título de “inquilino do sublime”, dado por seu amigo Otto Lara Resende, Vinicius buscou na música a simplificação de sua obra, aproximando-a do cotidiano sem, todavia, perder o lirismo que lhe era peculiar. Rompeu com a estética e o rigor da poesia formal para impor seu estilo pessoal de se referir ao amor. Ao romper com as amarras dos rigores poéticos, Vinicius trouxe a um número bem maior de brasileiros as querelas sociais e as desproporções econômicas entre seus conterrâneos, tudo por meio de sua poesia cantada, que acima de tudo tinha o amor como mote.

Da parceria com Carlos Lyra surgiram composições como “Samba do carioca”, “Primavera” e “Marcha da quarta-feira de cinzas”, reflete todo o engajamento político dos parceiros

Vinicius era um grande melodista e compôs canções extraordinárias. Dentre elas, destacam-se “Serenata do adeus”, “Pela luz dos olhos teus”, “Valsa de Eurídice” e “Tomara”, as quais criou sozinho. Ele também dizia que parcerias eram como casamentos e deveriam durar o tempo da paixão, tendo assim se comportado tanto numas quanto noutros, sempre optando por parceiros muito mais jovens que ele. Fogem a esta regra os irmãos Tapajós, Pixinguinha, Paulo Soledade e Antônio Maria. Todos os seus demais “cônjuges” musicais eram cerca de 20 anos mais jovens.

Assim como sua vida foi totalmente antiestética social (nove casamentos não são para nenhum devoto religioso), na música também teve parceiros que em nada se coadunavam com sua verve literária. O mais invulgar de todos eles, sem dúvida, foi Adoniran Barbosa, que musicou — com muito requinte — seu poema “Bom dia, tristeza”.

A peça “Orfeu da Conceição”, escrita em 1954, tornou-se o símbolo da vanguarda do teatro brasileiro. Por causa dela, surgiria uma das maiores parcerias da história da música: Tom e Vinicius, e com eles a canção que viria a ser a primeira produzida pela dupla: “Se todos fossem iguais a você”, um divisor de águas na Música Popular Brasileira. Da profícua parceria com Tom, surgiriam mais de 200 composições, dentre elas “Garota de Ipanema”, “Chega de saudade” e “Insensatez” .

Seu próximo parceiro seria o menino Carlos Lyra, que estranhou o modus operandi de Vinicius. O poetinha lhe solicitava as músicas gravadas e depois lhe telefonava avisando que já estavam com letras e finalizadas. Uma vez, Vinicius demorou a lhe responder e, quando o fez, disse-lhe que as músicas enviadas comporiam uma comédia musical. Lyra nada entendeu, mas obedecendo aos mais velhos, concordou. Subiram a serra em direção a Petrópolis, e depois de algum tempo e de várias caixas de whisky, eis que emerge a comédia musical “Pobre menina rica”, cujo veio principal é o amor de uma menina rica por um mendigo. Da obra surgem músicas como “Samba do carioca”, “O comedor de giletes”, “Sabe você” e “Primavera”. A música “Marcha da quarta-feira de cinzas” reflete todo o engajamento político dos parceiros.

Baden Powell: parceiro em 70 canções

Logo surge Baden Powell, um violonista com nome de escoteiro, muito embora seu comportamento jamais tivesse a ver com o escotismo. Baden era um virtuose do violão, que já frequentava a noite acompanhando Dolores Duran. Vinicius o convidou para que escrevessem juntos algumas músicas. Foram 70 composições no total, sendo que mais de 20 delas compostas em três meses de hospedagem de Baden no sofá da casa de Vinicius, sob a égide do whisky — maravilhas musicais, não só pela erudição de Baden como também pela lírica restaurada de Vinicius. Músicas dignas dos ouvidos mais seletivos, com destaque para “Apelo”, “Samba em prelúdio”, “Deixa”, “Formosa”, “Pra que chorar” e os Afro-sambas.

Edu Lobo, então com 19 anos, encontra-se com Vinicius na casa de Olívia (Hime), onde também estavam Francis Hime, Carlos Lyra e Baden Powell. Olívia, que se tornou Hime, era a pessoa que congregava toda esta efervescência cultural, recebendo-os em sua casa. Começava aí mais uma parceria musical de Vinicius, com aquele que viria a ser o mais erudito dos compositores da música popular brasileira. Compuseram juntos uma dezena de canções, sendo “Arrastão” e “Canto triste” as mais notáveis. “Arrastão”, interpretada por de forma estupenda Elis Regina, ganhou o 1º Festival da Música Popular Brasileira, tornando-se um marco divisor entre a Bossa Nova e a MPB propriamente dita.

Edu Lobo: o mais erudito dos compositores da música popular brasileira

Francis Hime se formou em Engenharia. Entretanto, quando Vinicius, em visita à sua casa, o ouviu ao piano dedilhando com maestria a “Valsa de Eurídice”, disse para sua mãe: “Não o deixe se tornar engenheiro, ele é um músico!” Juntos compuseram duas canções: “Sem mais adeus” e “A dor a mais”.

Das composições com Chico Buarque, apenas duas foram compostas em dupla: “Desalento” e “Valsinha”, sendo que nesta última a melodia é de Vinicius. As demais tiveram outros parceiros além dos dois: “Gente Humilde” (Garoto), “Olha, Maria”(Tom Jobim), “Samba de Orly” (Toquinho) e “Estamos aí”(Tom Jobim e Aloísio de Oliveira). Contudo, o relacionamento com Chico se deu não só por sua capacidade musical e criativa, mas também pela amizade que havia entre Vinicius e o pai de Chico, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

O violonista Toquinho foi seu último e mais frutífero parceiro. A parceria surgiu por acaso, mesmo porque Toquinho iniciou como violonista numa turnê que Vinicius estava fazendo pela Argentina com Maria Creuza. Logo depois, fizeram três apresentações no Teatro Castro Alves, com o show “Assim dizia o poeta”, nome da primeira música dos dois, cantada por eles e tendo como convidada sua única parceira feminina, Marília Medalha. Neste show, cantaram “Tarde em Itapuã”, que viria a ser o símbolo de criação da nova dupla de compositores. Vinícius foi muito criticado por esta parceria: muitos sucessos e pouca qualidade musical, dizia a crítica. Contudo, continuaram a produzir juntos, freneticamente, fosse por encomenda (novelas, séries etc.), fosse pela criatividade que estava aflorada.

Toquinho: o último e mais profícuo parceiro

Ao produzirem a “Arca de Noé”, atingiram, com composições que se tornaram antológicas, um nicho cuja exploração sempre fora de qualidade duvidosa. A “Casa” foi escrita unicamente por Vinicius, e se tornou um hino de todas as escolas do País em festas de encerramento de ano letivo. Não há como falar em produção de baixa qualidade, mesmo porque tanto Toquinho como Vinicius eram excelentes em tudo que se propunham a fazer.

Em 9 de julho de 1980, Vinícius de Moraes, que fora registrado como Vinitius, dada a devoção de seu pai pelo latim, se tornou hipótese, ou seja: morreu.

Onze canções fundamentais de Vinicius de Moraes