Vou ficar pelado em praça pública e me tornar um dos maiores  fenômenos literários de todos os tempos da última semana

Vou ficar pelado em praça pública e me tornar um dos maiores fenômenos literários de todos os tempos da última semana

A melhor banda de todos os tempos da última semana. Adoro ouvir a música dos Titãs. Eles me inspiram desde os anos 1980, quando se vestiam e se comportavam de maneira espalhafatosa, com visual um tanto punk, macaqueando nos palcos, nos videoclipes e nos programas de auditório da TV. Eu supunha que eles faziam aquilo para obter notoriedade, para chamar a atenção do público e da crítica para a sua música. Nem precisava tanto. Eles eram ótimos artistas, com ou sem o cabelo pintado de vermelho, com ou sem os tiques nervosos do notável Arnaldo Antunes.

Anda forte a onda de ficar pelado em público, com os mais variados objetivos, desde um simples ato de insanidade mental, como um mergulho refrescante no espelho d’água do Congresso Nacional, portanto, o mais puro e espontâneo de todos, até o protesto político-partidário e a livre expressão da arte. Eu também vou me expressar. Tenho um plano arquitetado na piolhenta. Não me lembro se eu já lhes disse, mas, estou com um livro no grelo da Graça, ou melhor, no prelo da gráfica. O título da obra é Bipolar. Não procurem em breve nas melhores livrarias do país, pois ele não estará lá, por mais que eu deseje. Na pior das hipóteses, haverá centenas de exemplares disponíveis em todas as prateleiras dos armários lá de casa, embaixo da cama e até na dependência completa da empregada. Ou seja, uma incompleta relevância literária, se não fosse pela vaidade pessoal. Em termos qualitativos, minha mãe acha que eu escrevo muito (na verdade, se deixassem, penso que eu escreveria horas a fio, como quem arrocha parafusos numa linha de produção) e considera essa fartura de livros simplesmente o máximo. Por outro lado, já posso escutar, com certa razão, a esposa xingando pelos cômodos da casa que não aguenta mais tanto livro entulhado embolorando nas estantes. Não a culpo. Ela sofre de asma e de excesso de franqueza.

Como eu ia dizendo, antes de ser interrompido pelos julgamentos preconceituosos, pelos sentimentos primitivos que ribombam nas suas mentes, concebi uma estratégia de marketing de guerrilha que julgo factível, a não ser que eu seja trancafiado por atentado ao pudor e aos bons costumes. Meu pai costumava dizer que eu era um bobo. Chupa essa, papai! Vou levar os exemplares dentro de uma Kombi. O destino escolhido será a Praça Pedro Ludovico Teixeira, um dos principais cartões postais de Goiânia, defronte o famoso Monumento às Três Raças, mais conhecido pela minha remota geração de adolescentes-que-se-amarravam-em-bullying, como “a estátua dos três negões”, por causa da coloração grafite, própria do metal. Se eu usasse este termo hoje seria acusado de racista, que eu acho uma coisa cabível e até merecida. Trata-se de uma escultura com cerca de sete metros de altura, fabricada em bronze, na qual três homens musculosos, seminus, sustentam juntos uma enorme pilastra de granito, aludindo à união e cooperação entre as raças (branco, índio e negro).

Por falar em cooperação, conto com a solidariedade de todos. Precisarei desovar a minha produção literária, antes que os gatos a enterrem. Causarei, pelado, a despeito do uivante conservadorismo da direita raivosa e da praga de mosquitos da dengue que infesta a metrópole, uma bela, criativa, calorenta e, assim espero, exitosa tarde de autógrafos. Levem dinheiro. Não vendo fiado. Não aceito cartões de crédito. Acreditem, tudo é o que parece ser. Não faço escambo, muito menos, troca-troca. Eu sou apenas um escritor sem calças de tergal sonhando com retinas.

Portanto, antes que eu me torne, definitivamente, um dos maiores fenômenos literários de todos os tempos da última semana, faço aqui e agora um derradeiro pedido: mesmo nu, só toquem nos meus genitais se eu consentir. A priori, o máximo de intimidade que eu espero de vocês, leitores, é que leiam o meu livro. E que os cachorros não me lambam.

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