Onde eu estava em 11 de setembro de 2001

Onde eu estava em 11 de setembro de 2001

A mãe de todas as perguntas, a pergunta que não quer calar, é “onde você estava em 11 de setembro de 2001?” Sim! Onde? Onde você estava? Eu sei onde eu estava.

Eu, Abdullah Falafel, o Taxista, filho de Ali Tabuleh, o Ferreiro, e neto de Habib Gamal, o Seviciador de Camelos, estava dentro do meu táxi, em Nova York. O carro pertencia a Ibrahim Husayin, o Dono da Frota de Táxis, que Alá o proteja, que me pagava três dólares por mês, e tinha me conseguido o Green Card falso e mais a carta de motorista igualmente falsa em nome de Panjuba Palindromobash, o Indiano. Na Nova Babilônia éramos todos iguais: indianos, paquistaneses, mexicanos e, credo, até argentinos.

Eu, Abdullah Falafel, era feliz. Olhar para os prédios de Manhattan era muito mais divertido que ficar vendo a grama crescer em Cabul. Que Alá me perdoe, mas o clima lá é uma merda e a grama não cresce nem a pau. Além disso, eu conseguia mandar um dólar por mês para a odiosa Cabul e meu pobre pai, Ali Tabuleh, o Ferreiro, podia assim alimentar meus 15 irmãos e 25 irmãs. Um dólar comprava 2.315,00 esfihas, a nossa odiosa moeda local.

Naquele dia fatídico, 11 de setembro de 2001, eu subia a Broadway em direção a Time Square, levando um casal de brasileiros muambeiros que falava um inglês ainda pior que o meu. Mesmo assim consegui me comunicar com os infiéis, pois conhecia muito bem a cultura do país deles: Pelé, café, favela e, que Alá, o Compreensivo, me perdoe, bunda em biquíni fio-dental.

Como eu dizia, naquele dia, eu, Abdullah Falafel, subia a Broadway em direção a Times Square — os brasileiros tinham ingressos para “O Fantasma da Ópera” — quando, de repente, uma limusine fechou o meu táxi. Furioso, botei a cabeça pra fora e gritei para o motorista: “Que Alá, o Misericordioso, encha sua fuça de pústulas, seu barbeiro filho de um camelo pederasta!”

O motorista da limusine saltou e me olhou com chamas nos olhos. Era Mustafá Zafir, o ex-Pastor de Cabras, um dos piores vagabundos de Cabul! O odioso Musfafá Zafir também ganhava a vida na Nova Babilônia a serviço de Ibrahim Isayim, o Dono da Frota de Taxis e de Limusines. Mustafá me odiava! Uma vez, em Cabul, eu o havia surpreendido praticando abominações com uma das cabras de Salan Seif, o Dono da Fábrica de Salsichas de Cabras! Ele nunca me perdoara!

“Abdullah Falafel!”, ele gritou ao me reconhecer. “Sabia que um dia eu o encontraria, seu porco decadente filho de uma rameira leprosa!”

“Mustafá Zafir!”, respondi. “Que Alá, o Bondoso, o fulmine até a morte, seu hediondo estuprador de cabras inocentes! Agora tira esta bosta de limusine do caminho!”

“Benhê, vamos descer e pegar o metrô?”, disse a brasileira no banco de trás.

“Você me dedurou para Ibrahim Isayim, seu saco de estrume pestilento!”, gritava Mustafá Zafir. “Por sua culpa eu abandonei minha adorada Cabul para ser servo dos infiéis na Terra do Grande Satã!”

“Então você devia me agradecer, cão sarnento dos infernos! Quem quer viver naquele lugar esquecido por Alá e pela civilização?”

“Não fale assim da minha amada Cabul, dromedário acometido por um milhão de pulgas! Eu devia arrancar sua língua, lacaio de cristãos e cruzados do caralho!”

“Benhê! Os indianos estão doidões! Vamos pegar o metrô!”

E neste momento, quando eu já me preparava para dar ré no táxi e ganhar distância da limusine do Mustafá, eu ouvi a explosão! Um avião tinha se enfiado no World Trade Center! Incrédulo, eu desci do carro e, neste momento, Mustafá, o Estuprador de Cabras, se aproveitou que eu olhava para o alto e chutou bem forte o meu saco! Que Alá fulmine o traiçoeiro peçonhento! Eu me contorci de dor e caí no chão, enquanto o casal de brasileiros saltitava do táxi sem me pagar a corrida. Que Alá acometa o país deles com dez mil escândalos de corrupção! Mustafá veio pra cima de mim aos pontapés e eu, cheio de dor, nem vi o segundo avião entrar na segunda torre e o céu explodir em mais chamas. Mustafá gritava e me socava e eu gemia e me contorcia e então teve um estrondo enorme e uma poeira branca tomou conta de tudo, deixando a cidade mais suja do que Cabul durante o verão.

Quando finalmente consegui com que Mustafá me soltasse o pescoço, nós estávamos cercados por policiais mal encarados. Fomos jogados num camburão, depois num avião e, finalmente, numa cela quente como o interior de uma camela. De nada adiantou eu dizer aos americanos que não conhecia nenhum terrorista.

Mustafá, o Filho de uma Égua Purulenta, disse que ele era agente do serviço secreto paquistanês e que sua missão em Nova York era me pegar! Eu! Eu! Mustafá, o Peçonhento, afirmava que eu era um terrorista do Talibã e também da Al Qaeda, do Hamas, do Hezbollah e do É o Tchan!

Os malditos infiéis me torturaram, me bateram, me encheram o saco com perguntas sobre uma tal de Rosana Bimbada e, por fim, me enfiaram num cargueiro e me despacharam de volta para a odiosa Cabul. Que, agora, além de odiosa, era uma montanha de escombros ainda pior do que quando eu a havia deixado. Nunca mais me maravilhei com os altos arranha-céus de Manhattan! Nunca mais pude mandar dólares para trocar por esfihas e alimentar meus 16 irmãos e 27 irmãs (meu pai, que Alá o abençoe, continuava muito fértil!).

Mustafá Zafir, o Maldito Fornicador de Animais de Médio Porte — que Alá, o Misericordioso, cubra seu corpo de pústulas supuradas! — hoje faz parte do governo afegão patrocinado pelos americanos infiéis, idólatras e sionistas! E eu, Abullah Fafafel, o ex-Taxista, hoje moro numa caverna e, só de raiva, me filiei no escritório mais próximo da Al Qaeda! Inclusive, estou indo muito bem nas minhas aulas de pilotagem. Amanhã mesmo eu embarco novamente para minha amada Nova York. Vai ser uma viagem bem rápida, mas vai dar pra matar a saudade dos arranha-céus. Ô se vai!