Lima Barreto deve ser visto como escritor poderoso e não como Zumbi dos Palmares da literatura

Lima Barreto deve ser visto como escritor poderoso e não como Zumbi dos Palmares da literatura

Lima Barreto (1881-1922) pertence a um segundo time de prosadores gabaritados, ao lado de Erico Verissimo, Má­rio Palmério, José Lins do Rego, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, João Antônio, Raduan Nassar, Rubem Fonseca, Lúcio Cardoso, Bernardo Élis, José J. Veiga, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Ana Maria Gon­çalves, Beatriz Bracher, Alberto Mussa, Bernardo Carvalho, Mi­guel Sanches Neto, Ronaldo Cor­reia de Brito, Antônio José de Moura, Edival Lourenço, Ronal­do Costa Fernandes (os 11 últimos, com obras em andamento, à espera de avaliações mais globais. Rubem Fonseca está vivo, mas com obra definida, e Raduan Nasser não publica mais).

Os leitores não devem se tornar prisioneiros de um cânone mínimo, que inclua tão-somente os hors-concours — Machado de Assis (“Memórias Póstumas de Brás Cubas”), Graciliano Ramos (“Vidas Secas”), Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas) e Clarice Lispector (“A Paixão Segundo G.H.”). Os quatro escritores tornam a literatura brasileira tão poderosa quanto a de qualquer outro país (com a inclusão dos poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar). Mas adoção apenas de um quarteto como cânone básico, ainda que de extrema qualidade, se não empobrece a literatura patropi, torna-a um pouco mais pobre do que as literaturas argentina, espanhola, portuguesa, inglesa, alemã, francesa, japonesa e americana (para citar algumas).

Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Guimarães Rosa

(A lista ficaria mais sólida com a inclusão de Euclides da Cunha, mas, apesar da prosa literária, não se trata de um escritor “clássico”, da estirpe de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. É provável que o autor de “Os Sertões” fique mais “confortável” ao lado de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e Raymundo Faoro. Tais autores, mais do que ensaístas, são pensadores da história, da política, da economia, da sociedade. São intérpretes do Brasil.)

Portanto, para tornar a literatura brasileira ainda mais poderosa, é preciso “incluir”, evitando sequestros ha­bituais, os prosadores (ou alguns deles) arrolados no primeiro parágrafo, além de outros que não foram citados e deixo para os leitores anotá-los.

Se o cânone precisa ser ampliado, até para mostrar, além da qualidade, a diversidade da literatura brasileira, por que se vai “questionar” a seguir a “moda” Lima Barreto?

Lima Barreto, frise-se, é um grande escritor. Mas fica-se com a impressão de que sua “redescoberta” — ele estava mesmo esquecido? — é uma tentativa de inseri-lo, a fórceps, entre os principais autores de romances e contos do país e, ao mesmo tempo, transformá-lo no Zumbi dos Palmares da literatura.

Lima Barreto: Triste Visionário, de Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras)

Não se trata de reduzir a importância de Lima Barreto. Até porque não é possível fazê-lo. O escritor é, de fato, relevante. Mas cabe perguntar: qual de seus romances equipara-se, em termos de linguagem renovada (ou mesmo tradicional), a “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ‘Vidas Secas”, “Grande Sertão: Veredas” e “A Paixão Segundo G.H.”? A resposta honesta talvez seja “nenhum”. Quem sabe o conjunto da obra (inclusive com a imponência de sua complexa biografia), entre romances, contos e crônicas, aproxime-o dos autores mencionados. Em comparações isoladas, obra a obra, não há dúvida de que não tem a força de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

É justo que a Companhia das Letras, uma das mais qualificadas editoras do país — e outras, como a Autêntica —, valorize a obra de Lima Barreto, para além de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (tão doloroso quanto divertido), “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” e “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, e contribua para que seja mais lida e apreciada. Estou na comissão de frente dos que aplaudem a iniciativa da valorizar sua obra por meio de edições qualificadas, inclusive com aparato crítico adequado. O jogo, se jogo é, da Companhia das Letras é, por certo, mais literário do que comercial. É possível que, sobretudo devido ao empenho da antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, autora da alentada (704 páginas) biografia “Lima Barreto — Triste Visionário” e mulher de um dos sócios da editora, Luiz Schwarcz, seja uma tentativa tanto de valorizar (publicar é valorizar) a obra do escritor quanto de situá-la, de maneira mais precisa, na literatura brasileira. A biografia escrita por Lilia Schwarcz, tão competente quanto a de Francisco de Assis Barbosa (“A Vida de Lima Barreto”, de 1952, republicada pela José Olympio Editora), contribui, de maneira decisiva, para, se o termo não soa excessivo, resgatar tanto o autor quanto a obra. (Frise-se que a Companhia das Letras contribuiu para um “revival” da obra de Nelson Rodrigues ao publicar a excelente biografia “Nelson Rodrigues — O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro.)

Oxalá Lima Barreto, nesta fase de “revalorização” — a Flip em sua homenagem é justíssima (torçamos para que se lembrem de Lúcio Cardoso, que era prosador, poeta e tradutor) —, seja interpretado pelo que é, um escritor de talento, que soube interpretar o Brasil, sua sociedade complexa, e não apenas pela celebrada negritude. Transformá-lo no Zumbi dos Palmares da literatura brasileira, um antecipador de batalhas raciais, longe de fortalecer, pode empobrecer o entendimento de sua prosa rica e variada. Um escritor não deve ser considerado bom porque defende “causas positivas” ou porque é negro, branco ou mulher. Um escritor deve ser avaliado como bom se sua literatura é de qualidade, mesmo quando contrarie princípios e ideologias de leitores e críticos. Uma “leitura racial”, digamos — e corre-se o risco de uma interpretação equivocada (com a sugestão de que quem escreve isto é racista; talvez seja preciso enfatizar que minha bisavó, Frutuosa Martins, é negra) —, não vai, em hipótese alguma, inserir Lima Barreto no cânone de quatro nomes centrais mencionados neste texto. O que vai inclui-lo, se vai, é uma leitura atenta de sua literatura — que está sendo feita por críticos criteriosos (Lilia Schwarcz, embora não seja crítica literária, é um deles) — e não a apologia ao fato de ser negro. Em Parati, ao menos em parte do que se leu nos jornais, o debate racial, as discussões sobre racismo, praticamente superou o debate literário. Os movimentos raciais ganham consistência, ao absorver Lima Barreto, mas não o fortalecem como escritor — que deveria ser a missão suprema, se se pode considerar isto como missão, daqueles que o admiram e, vá lá, defendem.

O antropólogo Antônio Risério, na resenha mais consistente de “Lima Barreto — Triste Visionário”, “Biografia de Lima Barreto se ressente de anacronismos” (“Folha de S. Paulo”), apontou as virtudes do livro, que não é mera atualização da pesquisa pioneira de Francisco Assis Barbosa, mas apresentou ressalvas que deveriam ter provocado debate (e não uma mera réplica).

“O livro [de Lilia Schwarcz] se ressente de anacronismos e idealizações. E toma como definitivos o politicamente correto e o jargão acadêmico-racialista hoje em voga. Isto é: ‘termos nativos’ da sociedade norte-americana, produtos do horror puritano às misturas e mestiçagens, que os movimentos negros e o ‘establishment’ universitário importaram para cá”, escreve Antônio Risério.

A capa da biografia mostra um Lima Barreto quase como Zumbi dos Palmares, exacerbando a negritude. O comentário de Antônio Risério: “Na capa, quase um hiper-realismo emprenhado de expressionismo, estampa-se a ânsia de tratá-lo não feito ‘mulato livre’, mas ‘afrodescendente’. Lima não se voltou para culturas de origem negroafricana. Sua preocupação é o mulato carioca em busca de integração e ascensão sociais”.

Na análise final, ressaltando com certa delicadeza que Lilia Schwarcz pesa a mão, Antônio Risério assinala: “E terminamos o livro com uma frustração. Lilia fala que Lima cultivou uma ‘forma literária afrodescendente’. Mas não diz o que isto significa”. Não é o caso, e nem Antônio Risério diz isto, mas fica-se com a impressão de que, para compensar a existência de um “negro-branco”, Machado de Assis, aposta-se na criação de um “negro-negro” na literatura brasileira. Pode ser, como sugeri, mera impressão.

Na edição seguinte da “Folha”, apareceu um intelectual para defender o livro de Lilia Schwarcz. A biografia não precisa de defensores, e sim de um debate mais amplo. Quanto a Lima Barreto, mais de que apologistas da “causa racial”, o que ele precisa, de verdade, é de um grupo de críticos, como a própria antropóloga, que estude sua obra com atenção e a situe de maneira precisa na literatura brasileira. Além dos leitores comuns, o escritor precisa de críticos da estirpe de John Gledson, Roberto Schwarz, Luís Augusto Fischer, João Cezar de Castro Rocha, Dau Bastos, Flora Sussekind, Walnice Nogueira Galvão, Leyla Perrone-Moisés, Alcir Pécora, Leda Tenório da Motta, Rodrigo Gurgel e Alfredo Bosi.

Lima Barreto não era Martin Luther King e tampouco o ótimo James Baldwin. É um grande escritor e, como tal, deve ser lido e valorizado.

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