Depressão não é frescura

Depressão não é frescura

Seres humanos são mamíferos singulares. Você pensa que é forte, mas, você é fraco. Na semana passada, encontrei um amigo num corredor hospitalar. Adoro cheiro de éter. Demorou um pouco até que eu o reconhecesse, pois estava com a lataria avariada, tipo assim, meia-boca, em mau estado de conservação, a aparência de quem rodou muito em estrada de terra, se é que me entendem. Acho que não o via há séculos, desde a formatura.

Apesar do absurdo lapso temporal, abraçamo-nos como os irmãos, em geral, se abraçam. Contou-me, numa estado de animação acima da média, de acordo com os meus parâmetros pessoais, que estava no meio de um tratamento contra a leucemia, numa de suas formas mais raras e agressivas, e que os quimioterápicos vinham deixando o seu corpinho de mister universo deveras detonado. Foi ele quem disse isso. Então, rimos à beça.

Pelo pouco tempo que conversamos, relembramos certas coisas do passado, sempre o passado roubando tempo da maturidade, reforçando uma amizade que já durava, sei lá, uma penca de anos. Repetimos anedotas, rememoramos acontecimentos hilários, quem tinha comido quem na faculdade, os que já tinha esticado as canelas, quem fora preso, quem tinha se divorciado e outras baboseiras.

Conversa vai, conversa vem, ele perguntou se eu já sabia do ocorrido com o Ernesto. Ernesto era um colega da faculdade de medicina, um negrão bonito, um varapau hondurenho simpático como ninguém, que tinha redigido e lido o discurso de formatura na colação de grau da turma, para indignação e fúria de alguns formandos branquelos metidos à besta. Especializou-se em cirurgia plástica, tornando-se um renomado profissional da área, bastante requisitado por dondocas endinheiradas e doentes de verdade.

Ernesto tinha 52, era casado com uma médica linda, vinte anos mais nova, tinha dois filhinhos em idade escolar, e pegou muita gente de surpresa ao se matar na semana passada. Sem causa aparente, ele engendrou um planejamento para lá de mórbido, driblando parentes, amigos e colegas de trabalho. Diligente, o doutor Ernesto usou o toalete da clínica chique na qual atendia a seleta clientela, para dar números finais à sua vida. Tinha tudo para ser feliz. O que tinha dado errado?

Profissional ilibado, exímio cirurgião, conhecedor profundo de anatomia humana, Ernesto trancou-se no banheiro, aplicou anestésico sob a pele do pescoço, lado direito (era canhoto, habilidoso com as mãos e com os pés, artilheiro por anos consecutivos nos antigos jogos universitários), então, dissecou com esmero o tecido subcutâneo, até dar de cara com ela, a carótida, uma das mais importantes e calibrosas artérias do corpo humano. Daí, aplicou um golpe com o bisturi (vupt!), um talho certeiro que fez render esguichos de sangue-do-cordeiro para tudo quanto foi lado. Ernesto morreu feito um carneirinho e isso não é lero-lero de escritor.

Velório é aquele tipo de compromisso desagradável ao qual não se pode faltar. Todos comentavam, cochichavam, estarrecidos, o desaparecimento súbito do Ernesto, ainda mais daquele jeito brutal, horrendo, deixando mulher e filhos pequenos, utilizando uma bizarra técnica de autoextermínio, valendo-se do vasto conhecimento profissional que possuía para ceifar, literalmente, e sem firulas deste escriba, a própria vida.

Dentre tantas teorias estarrecedoras, prevalecia a tese de que o Ernesto sofria de depressão desmotivada, subestimada por ele e pelos seus convivas. Pelos cotovelos, como se os ouvidos das pessoas fossem privada, alguns vociferavam que depressão era frescura. Outros garantiam que era o mal do século, falta de Deus, excesso de trabalho. Olhando assim, de fora, mesmo estando dentro, enterrado até os colhões, restava para mim a impressão de que o mundo andava às avessas, mais pirado do que nunca. Sei lá. Em matéria de compreender os desígnios dessa ilógica existência no planeta, somos uma cambada de ignorantes defendendo um monte de teorias. Podem me incluir nesta seara, de corpo e asma; porque em alma eu não acredito.

A biomédica gritou Múcio! “Vai ser bonita assim lá em casa”, ele brincou. Era a sua vez. Beijei o seu rosto de cera e casquei fora. Como ele mesmo me disse, num chiste derradeiro, “De hospital, igreja e cemitério, quanto mais rápido a gente sair, melhor”. Caminhei cabisbaixo, melancólico. As comparações foram inevitáveis. Pensei nas minhas dádivas, nas dúvidas, nas dívidas também, e elas não eram poucas. Pensei no Múcio, um médico fracote aplicando jabs na cara da morte. Pensei no Ernesto, um negrão com corpo de pugilista, que eu nunca mais vi desde que recebemos o canudo de formatura, emporcalhando o toalete com seu sangue hondurenho.

Pensei tantas coisas ao mesmo tempo que acabei concluindo que seria mais feliz se não pensasse tanto. Sempre me preparo para o pior dos cenários. Uma completa perda de tempo. Perdi também o dia e as chaves do carro. Não tinha importância. Na verdade, naquela tarde modorrenta e tórrida (sempre fazia um calor dos infernos no mês de agosto), depois daquele inusitado reencontro, eu não me lembrava, sequer, onde tinha estacionado o carro, nem aonde eu ia, nem aonde ia dar aquela vida louca. Será que era só frescura minha?

1953